Especialistas em administração pública do Senado
propõem alternativas à reforma da previdência
para reduzir gastos do governo
Enquanto boa parte dos especialistas aponta a redução
com gastos da previdência, que representam 43% da despesa
primária da União, como condição necessária
para acelerar o crescimento econômico do País, os consultores
do legislativo do Senado, Marcos Mendes e Gilberto Guerzoni, propõem,
que se olhe os outros 57% da despesa para traçar estratégias
alternativas ou auxiliares a uma reforma da previdência.
“Como existem diversas propostas de reforma da previdência
e não queremos chover no molhado, resolvemos buscar caminhos
para reduzir e racionalizar a outra parte da despesa pública”,
explicou Mendes, durante reunião do Conselho Superior de
Economia (Cosec) da Fiesp, nesta segunda-feira (10/07), na sede
da entidade.
De acordo com Mendes, a proposta contida no livro Gasto público
menor e mais eficiente: 91 propostas para o Brasil – obra
organizada por ele com a participação de vinte especialistas
em finanças e gestão pública, cujo lançamento
está previsto para este ano – é mais micro do
que macroeconômica. Isso porque sugere mudanças gerenciais
relacionadas à redução de despesas obrigatórias,
à política de pessoal, aos gastos dos poderes com
autonomia orçamentária (Legislativo, Judiciário,
Ministério Público e tribunais de contas), à
transferência de recursos aos estados e municípios,
entre outras.
Para comprovar a tese de que um Estado grande e mal administrado
impede o crescimento do País, os dois expositores lembraram
que, de 1995 a 2005, a dívida líquida do setor público
cresceu de 29% para 50% do Produto Interno Bruto (PIB), a despesa
total do governo passou de 23% para 31% e a carga tributária,
de 29,4% para 38,9%.
“É
sabido, por exemplo, que a alta carga tributária prejudica
as exportações e desistimula o investimento, ao passo
que a dívida pública elevada dificulta a entrada de
capital estrangeiros em investimentos diretos”, afirmou Mendes.
De acordo com Antonio Delfim Netto, economista e presidente do Cosec,
o Brasil é o único lugar onde o Estado cresceu depois
das privatizações. “Venderam o patrimônio
e a dívida aumentou”, comentou, durante a reunião.
Mas se por um lado Mendes e Guerzoni propõem uma redução
do tamanho do Estado para maximizar o crescimento, por outro, ambos
são contra a idéia de Estado mínimo. Segundo,
eles, numa sociedade tão desigual, como a brasileira, o Estado
deve buscar melhorar a distribuição da renda e das
oportunidades.
Entre as propostas apontadas pelos dois especialistas para corrigir
os problemas diagnosticados e melhorar os gastos do governo estão:
a flexibilização das despesas com saúde, educação
e outros itens fixados na Constituição; melhor distribuição
dos royalties do Petróleo para evitar a concentração
de recursos em meia dúzia de municípios; instituição
de um teto para os gastos dos poderes com autonomia orçamentária;
e revisão dos gastos com a folha de pagamento e com os valores
repassados para estados e municípios.
Segundo Mendes, os salários dos juizes no Brasil estão
entre os maiores do mundo. Em 2000, o total das despesas do judiciário
representou 3,66% do PIB nacional, enquanto que, no mundo, essas
despesas não ultrapassaram 1% do PIB global. “No ranking
da despesa per capita do judiciário, o Brasil só perde
para a Itália”, afirmou.
Assimetrias como essa podem ser percebidas também na transferência
dos recursos da União para estados e municípios. Em
2005, essas esferas administrativas receberam R$ 117 bilhões,
o que representou um crescimento real de 120% em relação
a 1995.
Transferências a estados e municípios
No caso dos municípios, o objetivo dessa transferência
é preencher o hiato entre a capacidade de arrecadação
local e os gastos obrigatórios. No entanto, isso nem sempre
acontece, pois o dinheiro vai para municípios sem população
suficiente para produzir bens públicos. Cidades médias
nordestinas e da periferia das regiões metropolitanas, em
que há grande concentração de problemas sociais
e urbanos, acabam sendo sub-financiadas (ver tabela abaixo).
“Para resolver esse problema, propomos a redefinição
dos critérios de partilha do Fundo de Participação
dos Municípios com vistas a direcionar os recursos para onde
eles são mais necessários”, disse Mendes.
Quanto à folha de pagamento, que cresceu durante o governo
Lula, Guerzoni explicou que os reajustes salariais seguiram a seguinte
lógica sindical: o maior aumento possível dentro do
orçamento existente. “O atual governo tem uma política
explícita de crescimento do Estado. No governo anterior,
havia uma política envergonhada de reduzir o Estado, agora,
é o contrário”, afirmou o especialista, alertando
para o fato de que esse crescimento gera efeitos para mais de 30
anos.
Na opinião do economista David Kupfer, não dá
para saber se o Estado é grande ou pequeno demais para as
necessidades do País, sem um programa de governo que, segundo
ele, nem o PT nem o PSDB dispõem. “Não temos
um projeto Brasil que dimensione, entre outras coisas, o tamanho
do Estado. Como a gente não discute a essência, o Estado
vem crescendo de maneira ineficiente”, argumentou Kupfer.

Fonte: Gasto público menor e mais eficiente: 91 propostas
para o Brasil
Mariana Ferreira, Agência Indusnet Fiesp
Fotos: Sidney Bloch