“ Por: Flávio Calixto Xavier *
O incentivo
à prática da manutenção preventiva em
automóveis é algo essencial tanto para a segurança
do proprietário e da sociedade como também para a
preservação do capital investido neste bem, além
de ser menos dispendiosa que uma corretiva. Apesar de todas as vantagens
que a manutenção preventiva tem sobre a corretiva,
os reparadores ás vezes possuem dificuldades para vender
a idéia ao cliente por causa da cultura de consertar após
a quebra, já instalada no país desde o início
da indústria automotiva.
Para ajudar o reparador é importante que o mesmo conheça
com clareza o conceito que envolve as diversas modalidades de manutenção.
Na indústria, outras modalidades de manutenção
já são aplicadas à décadas com muito
sucesso, diminuindo muito os custos de manutenção
e produção. As técnicas de manutenção
nasceram, tanto na indústria quanto no meio automotivo, a
partir de conceitos aplicados na manutenção aeronáutica.
Aviões não podem conviver com manutenções
corretivas! Todos concordam com isso, principalmente após
vermos tragédias ocorridas com aeronaves. Após contribuir
para o ramo aeronáutico, estes conceitos foram adaptados
à indústria onde aumentou a lucratividade e confiabilidade
das máquinas. Agora é a vez de ser utilizada pelos
reparadores automotivos. Se as técnicas modernas de manutenção
trouxeram lucro e confiabilidade para indústrias e aeronaves,
precisamos convencer nossos clientes que é lucrativo para
eles também.
Alguns conceitos
importantes para o conhecimento do reparador com alguns exemplos
de aplicação
Antes de tudo, é importante conhecer o conceito de defeito
e falha, a princípio parece se tratar da mesma coisa, mas
não é, pois em manutenção representam
eventos diferentes. Defeito pode ser definido como desvio das características
de um item em relação aos seus requisitos, ou dano
a um componente ou conjunto que não prejudique o desempenho
de sua função, podendo se tornar uma falha caso não
seja tratado. Um exemplo de defeito é uma coifa de junta
homocinética rasgada. O rasgo na coifa não impede
que o veículo continue a desempenhar sua função.
Já a falha, pode ser definida como sendo o término
da capacidade de um item de desempenhar a função requerida
ou dano a um componente ou conjunto que impeçam o desempenho
de sua função. Como exemplo, a mesma junta homocinética,
caso não tenha sua coifa trocada irá perder sua lubrificação,
vindo a sofrer desgaste e por consequência poderá se
quebrar, impedindo o veículo de cumprir sua função.
Ou seja, defeitos evoluem tornando-se falhas. Preventivamente estaremos
atuando em defeitos e corretivamente estaremos atuando sobre falhas.
Cada máquina ao longo do tempo possui uma determinada probabilidade
de falha que segue uma curva como a mostrada na figura 1, é
o que conhecemos como curva da banheira (devido sua forma). A fase
1 é característica do início de operação
da máquina quando nova. A probabilidade de falha é
alta, devido a problemas de montagem, problemas na qualidade de
componentes e ajuste entre as partes. É comum vermos carros
novos serem levados à concessionária para sanar algum
problema ou serem convocados pela fábrica para um recall.
Após os primeiros quilômetros rodados (ou horas de
serviço) a máquina ou veículo passará
a fase 2 que é caracterizada por um longo período
sem falhas quando as peças estão devidamente ajustadas.
Após este período o veículo entrará
na fase 3 que é quando as peças estarão com
desgaste elevado e a probabilidade de falhar aumenta, caso não
sofra nenhuma intervenção de manutenção,
teremos um grande número de quebras.
O
objetivo da manutenção, é no tempo certo atuar
de forma a impedir as quebras na fase 3, aumentado assim por tempo
indefinido a fase 2, com manutenções regulares no
veículo, estabelecendo uma curva como a mostrada na figura
2.
Estas
curvas podem ser atribuídas a subsistemas do veículo,
já que cada um tem um tempo de vida diferente na fase 2 da
curva. O motor por exemplo, tem um tempo de vida superior ao da
suspensão. Atuando desta forma teremos um veículo
rodando sempre que precisarmos parando para fazer as manutenções
de forma planejada com um custo de manutenção baixo.
A manutenção corretiva é também chamada
de manutenção reativa, ou seja, reagimos a um evento
que aconteceu (a falha), pode ser conceituada como sendo: toda atividade
de manutenção, realizado em veículos que estejam
em falha. Uma simples queima de fusível, que deixe o veículo
imobilizado, é uma falha, que provocou uma manutenção
corretiva.
A manutenção preventiva é uma evolução
em relação á manutenção corretiva,
com custos visivelmente mais baixos. No exemplo da junta homocinética
pense: se for feita de forma corretiva, ela poderá se quebrar
em um momento inoportuno, como ao ir para o trabalho. Imagine os
custos: um guincho até a oficina, as suas horas perdidas
no trabalho, o custo das peças (a coifa e a junta homocinética)
e a mão de obra do mecânico. Se o proprietário
tivesse optado pela preventiva poderia ter planejado um horário
mais adequado para o reparo, desembolsando apenas o valor referente
á coifa que havia rasgado e a mão-de-obra do mecânico.
Assim, manutenção preventiva pode ser definida como
todo o trabalho de manutenção realizado em automóveis
que estejam em condições de funcionamento, ainda que
apresentem algum defeito. Assim todos os trabalhos executados no
veículo antes que se tornem falhas são manutenções
preventivas.
Os
tipos de manutenção preventiva
As manutenções preventivas podem ser divididas ainda
em duas classes: as preventivas periódicas e as preventivas
necessárias. As preventivas periódicas são
aquelas que executamos independente do componente apresentar algum
defeito. Como trocar um filtro a cada 15.000 km, trocar o óleo
a cada 10.000 km ou trocar a correia dentada a cada 30.000 km. Nenhum
dos itens estava apresentando defeito, mas preventivamente foi substituído.
Já a preventiva necessária é aquela executada
a partir da constatação de um defeito. Como exemplo,
a troca de uma coifa rasgada, ou um rolamento a partir do momento
em que se detectou um ruído anormal.
Uma das grandes vantagens da manutenção preventiva
é que quando executada por um reparador experiente permite
além de economia de dinheiro para o proprietário,
um escalonamento de gastos. Cada componente do automóvel
possui um tempo de desgaste até a falha diferente, é
o que se chama de tempo de pré-aviso. Quando o cliente visita
com frequência a oficina o reparador irá detectar o
defeito no início permitindo prever quando se tornará
uma falha. Assim este tempo entre o início do defeito e a
falha é chamado de pré-aviso. Trocando a peça
um pouco antes da falha você terá aproveitado o componente
ao máximo com segurança e não correrá
o risco de enfrentar uma falha. Desta forma, com o conhecimento
do tempo de pré-aviso, quando detectar uma bucha de suspensão
com pequeno desgaste, cabos de vela com sinais de fuga de corrente
e pastilhas de freio com desgaste, o reparador poderá priorizar
a troca dos cabos para a semana seguinte enquanto os outros reparos
poderão ser planejados para meses subsequentes.
Outra modalidade de manutenção que na indústria
veio somar à manutenção preventiva é
o que chamamos de manutenção preditiva (predizer um
evento), que no meio automotivo é pouco difundida, mas muito
utilizada em máquinas pesadas: fora de estrada ou frota de
caminhões. A manutenção preditiva é
definida como: o trabalho de acompanhamento e monitoração
das condições do veículo ou máquina,
de seus parâmetros operacionais e sua degradação.
A manutenção preditiva consiste então de monitoração
das condições físicas da máquina através
de medição de vibração, temperatura,
análise de óleo, pressão e outros parâmetros
operacionais, é o que chamamos de preditiva objetiva, utilizando
instrumentos (há a preditiva subjetiva citada mais adiante).
Além da preditiva objetiva – que é feita com
instrumentos, há também a preditiva subjetiva que
é aquela em que usamos os nossos sentidos, como: a audição
para escutar ruídos, o tato para sentir vibrações
e temperatura e a visão para visualizar defeitos visíveis.
É claro que para ser considerada como manutenção
preditiva a mesma deve ser executada a intervalos de tempo pré-determinados
para se estabelecer uma tendência de evolução
da situação.
Pelos conceitos apresentados, podemos observar que inconscientemente
praticamos várias modalidades de manutenção
citadas. A importância do conhecimento dos conceitos esta
na segurança de argumentação que o reparador
terá para justificar junto a seu cliente a utilização
de uma ou outra técnica, ou todas, dependendo do caso, principalmente
a manutenção preventiva que esta mais ao alcance do
reparador no momento.
Flávio
Calixto Xavier
Engenheiro Mecânico