Quando a sociedade em geral e a mídia em particular tratam
da questão dos acidentes de trânsito super valorizando
as causas comportamentais, na realidade acertam e erram ao mesmo
tempo. Acertam por serem as falhas comportamentais o que de mais
significativo temos como causa de violência no trânsito.
Erram, pois dão pouca ou nenhuma importância, subestimando
ou mesmo esquecendo as causas associadas ao veículo e à
via pública.
Em termos de comportamento, seja do condutor como também
do pedestre, a dificuldade está em primeiro lugar na incapacidade
de identificar, avaliar e administrar os riscos do trânsito
e, em segundo, lugar a falta de informação e conhecimento
da legislação de trânsito ao nível adequado.
Quem desconhece a lei não pode praticá-la. Atitudes
de alto risco são banalizadas como, por exemplo, beber e
dirigir, exceder na velocidade, ignorar a sinalização
viária, falar ao celular enquanto dirige.
O fator de risco associado ao veículo muitas vezes é
confundido com a idade do mesmo, esquecendo-se que a negligência
na manutenção pode ser mais perniciosa. Podemos ter
um veículo sucateado com apenas cinco anos de uso e um veículo
seguro com 25 anos de bons serviços prestados a partir de
cuidados básicos e constantes com a segurança mecânica
necessária. Recentemente, discutiu-se muito, em reportagens,
a questão da idade da frota de ônibus da cidade de
São Paulo.
Não se ouviu no debate que mais importante do que a idade
é o estado de conservação do veículo.
Pesquisa realizada em 2002, por nós coordenada e patrocinada
por várias entidade ligadas ao setor de autopeças
e reparação de veículos em São Paulo,
mostrou que na amostra de acidente com vítimas, em 27% dos
casos, o fator de risco veicular ocorreu como causa do acidente.
Durante décadas esse fator foi considerado como se fosse
próximo de 5%.
Discute-se a implantação da Inspeção
Técnica Veicular (ITV) aproximadamente por 20 anos. Não
foi até agora implantada, apesar de explicitamente obrigatória
pelo Código de Trânsito Brasileiro de 1997, no seu
artigo 104: Os veículos em circulação terão
suas condições de segurança, de controle de
emissão de gases poluentes e de ruído avaliadas mediante
inspeção que será obrigatória, na forma
e periodicidade estabelecidas pelo CONTRAN para os itens de segurança
e pelo CONAMA para emissão de gases, solventes e ruído.
O que se vê é a negligência do proprietário
do veículo que não acredita que a Manutenção
Preventiva seja economicamente vantajosa e a omissão do CONTRAN
em cumprir o que manda a lei há oito anos de vigência.
Na raiz das causas de muitas tragédias do nosso trânsito
está um veículo licenciado sem condições
mínimas de segurança. É oportuno lembrar que
o mesmo Código de Trânsito prevê a responsabilidade
objetiva quando o órgão de trânsito erra ou
se omite em relação ao exercício do trânsito
seguro (Art. 1º do CTB).
Além da segurança, os veículos poluidores são
altamente nocivos à saúde pública. É
interessante assistir ao debate, sempre oportuno, dos ambientalistas
quando se transplanta uma árvore ou se impermeabiliza uma
área e, ao mesmo tempo, assistimos, uma frota de mais de
20 milhões de veículos circulando pelo país,
em especial nos grandes aglomerados urbanos, envenenando literalmente
o ar que todos respiramos causado por motores desregulados.
O fator via pública tem padecido da falta de técnicos
com formação em engenharia de tráfego no trato
do trânsito urbano e rodoviário. Tem faltado recursos
alocados ou por falta de valorizar a operação da via
em relação às obras de capital intensivo, ou
por se ignorar conquistas do CTB como no seu Artigo 320 que obriga
gastar em trânsito o dinheiro arrecadado nas Multas de trânsito.
O Fundo Nacional de Segurança no Trânsito está
praticamente inoperante. Tem recursos e não tem permissão
para gastá-los. A situação rodoviária
brasileira está à beira de um colapso. Tirando-se
alguns milhares de quilômetros, objeto de concessão
rodoviária, o que se vê são rodovias inseguras
com grave prejuízo econômico e à segurança.
A situação atual impede o país de entrar efetivamente
na era da logística de transporte, essencial para uma economia
moderna e uma exportação mais competitiva.
A evolução do pensamento rodoviário brasileiro
a partir do advento da empresa concessionária explicitou
uma deficiência histórica, qual seja a praticamente
inexistência da atividade de operação das rodovias.
Assim, as autoridades rodoviárias, apesar de nem sempre praticarem
níveis técnicos adequados, entendiam as fases de planejamento,
projeto, obra, manutenção, fiscalização.
Não consideravam, portanto, não praticavam e em boa
parte ainda não praticam a atividade de operação
que tem sido confundida, algumas vezes, com manutenção,
outras com a atividade de fiscalização feita pelas
Polícias Rodoviárias cuja formação e
objeto não contemplam as técnicas de operação
propriamente ditas, especialmente de engenharia rodoviária.
Quem pratica operação sabe que esta atividade não
se confunde nem com manutenção nem com fiscalização.
As centrais de controle operacional informatizadas demonstram visual
e fisicamente esta verdade e a importância de se operar com
apoio tecnológico compatível.
A detecção instantânea de problemas, eventos,
condições de tráfego, pelos de meios de tecnologia
de informação e equipes de campo devidamente equipadas
possibilitam um ciclo de resposta também quase instantâneo.
Com relação à gestão das cidades tem
ocorrido situação semelhante. Estamos ainda vivendo
um modelo em que são buscadas soluções dos
problemas, em especial aqueles que tratam da mobilidade, exclusivamente
aquelas de capital intensivo (um modelo calcado no hardware urbano)
e pouco se evoluiu nas medidas operacionais (software urbano).
Acredito que as cidades brasileiras de certo modo estão vivendo
uma transição de um para outro modelo mais por uma
realidade de redução da capacidade de investimento
nas grandes obras do que por uma cultura de se priorizar a operação
com eficiência a infra-estrutura já implantada.
As centrais informatizadas de controle de tráfego, como as
que existem na operação do trânsito de São
Paulo e também nas rodovias concessionadas, representam o
núcleo vivo da operação beneficiando a fluidez,
a segurança e o meio ambiente. Integram o controle eletrônico
do tráfego, circuito de TV, fiscalização eletrônica,
comunicação interna e externa, relacionamento com
os demais órgãos da administração pública,
funcionam diuturnamente e representam um grande avanço ao
nível de atendimento da sociedade.
Na conjunção de condutor, veículo e via pública
seguros a sociedade economiza com Manutenção Preventiva,
operação com tecnologia e menos riscos, portanto,
mais vidas humanas poupadas.
Fonte:
Jornal Oficina Brasil
Texto: Roberto Salvador Scaringella