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Indústria automobilística

Momento decisivo

O mercado brasileiro de veículos automotores está na mira dos fabricantes estrangeiros, especialmente chineses. A indústria nacional corre contra o tempo para adaptar-se ao novo cenário

por Domingos Zaparolli

A produção da indústria automobilística brasileira cresceu 4,5% nos primeiros oito meses do ano, ao alcançar a marca do 1,76 milhão de veículos. E a Associação Nacional dos Veículos Automotores (Anfavea) calcula que serão fabricados 2,53 milhões de unidades em 2006, o maior volume da história do setor. O mercado interno ficará com 1,84 milhão de veículos, o que representa um aumento de 7,1% em relação ao ano passado.
Qualquer indústria que apresentasse tal desempenho, em um país que cresce em torno de 3% ao ano, teria motivos de sobra para comemorar. Mas o clima no setor automobilístico não é exatamente de festa. Em setembro, durante evento da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE), Ray Young, presidente da General Motors do Brasil, lançou a seguinte pergunta: “A indústria automobilística brasileira tem futuro?”
A platéia, formada por executivos do ramo, dividiu-se. Uma parcela significativa respondeu que não. Young demonstrou que há fortes argumentos para respaldar as duas posições. “Estamos em um momento decisivo. O que ocorrer nos próximos anos definirá se o Brasil terá ou não papel importante no setor”, disse o presidente da GM.
A indústria automobilística mundial está passando por um grande processo de reestruturação. Há um excesso de capacidade produtiva. No final de 2005, a capacidade instalada mundial era de 77 milhões de veículos por ano para um consumo de 60 milhões. As montadoras também estão migrando em busca de custos produtivos mais baixos. Desativam fábricas em centros tradicionais de produção e investem em países como Polônia, Rússia, República Checa, México, Índia e, principalmente, China.
Até o final da década, a capacidade instalada na China deve dobrar, chegando a 11 milhões de veículos. Aproximadamente 40% desse volume deve seguir para o mercado externo. E se, hoje, os veículos chineses não atendem o padrão de qualidade internacional, isso deve acontecer em três anos, segundo os especialistas.
O rearranjo do setor está causando tremores nos alicerces de indústrias tradicionais. GM, Renault e Nissan estudam atuar em parceria. Ford, DaimlerChrysler, Volks e Fiat reestruturam suas atividades em todo o mundo. Nesse contexto, as unidades regionais das montadoras vivem sob risco permanente. As que têm melhores condições competitivas recebem investimentos para produzir novos modelos e sobrevivem.

Mercado e custo. A indústria automobilística, como todas as outras, define seus investimentos levando em consideração principalmente dois fatores: custo de produção e mercado. Na opinião de analistas e executivos do setor, como Ray Young, o Brasil não alcança patamares satisfatórios em nenhum dos dois requisitos.
“No novo cenário da indústria automobilística mundial, o País não pode mais ser classificado como de baixo custo de produção”, diz Letícia Costa, presidente da Bozz Allen Hamilton brasileira. Um estudo da consultoria aponta que o preço da mão-de-obra é baixo no Brasil, em comparação com o dos países desenvolvidos, mas chega ao dobro do verificado na Índia e ao triplo do vigente na China.
Ray Young também aponta outra desvantagem do País: a logística cara, que representa, em média, 16%, mas pode chegar a 30% dos custos de produção. Entre os países desenvolvidos esse item não alcança 10%. Outro ponto negativo são os impostos nacionais, que representam 31% do preço do automóvel. Na Europa, equivalem a 15% e, nos Estados Unidos, a 6%.
Quanto ao mercado - o outro item definidor de investimentos -, o brasileiro é considerado relevante, mas também pode ser classificado como intermediário. É superior ao indiano e inferior ao russo. Mas corresponde a apenas um terço do mercado chinês. Até 2015, estima a Booz Allen, as vendas de veículos no Brasil, na Índia e na Rússia devem crescer em torno de 10%. Na China, o aumento deve chegar a 72%. (veja quadros).

Exportações. Apesar do aumento do mercado brasileiro nos últimos anos, o consumo em 2006 ainda não deverá alcançar o nível de 1997, quando somou 1,9 milhão de veículos.
Ocorre que a capacidade instalada em automóveis e comerciais leves no País é de 3,2 milhões de unidades. “A indústria brasileira precisa do mercado global para ter escala”, diz Costa.
Nas vendas externas, no entanto, foi engatada uma marcha a ré. Nos primeiros oito meses de 2006, as receitas com exportações no setor somaram US$ 11,5 bilhões, 2,7% mais que no ano anterior. Mas o crescimento decorreu de aumento de preços.
Em volume, os embarques somaram 569,4 mil veículos, 5,2% menos do que em 2005. E a tendência é de resultados ainda piores nos próximos anos, uma vez que várias empresas já anunciaram perdas de contratos no exterior. A GM, que no ano passado exportou 208 mil veículos, não renovou contrato para fornecer as minivans Meriva ao México. As exportações totais da montadora cairão 20% este ano.
A Fiat, que exportou 98 mil unidades em 2005, prevê comercializar 80 mil no exterior em 2006. Já na Ford as exportações devem encolher 10% este ano.
A empresa mais afetada, porém, é a Volkswagen. Em 2005, a montadora vendeu para outros países 256 mil veículos, 42% de sua produção. Mas agora as perspectivas são de queda continuada: a companhia espera exportar apenas 196 mil em 2006 e 156 mil em 2008.

Pactos comerciais. A indústria automobilística brasileira passou a concentrar esforços no exterior há quatro anos. Com o dólar na casa dos R$ 3, o câmbio tornava as vendas internacionais convidativas. E o atual declínio das exportações está diretamente relacionado à valorização do real. “A variação cambial entre 2003 e agosto de 2006 foi de 39%. É muito alta”, diz Young.
A valorização do real e os custos da produção brasileira não são, porém, os únicos fatores a inibir as exportações. “Este é um setor muito regulamentado em todo o mundo; é difícil exportar sem acordos de intercâmbio comercial”, afirma Letícia Costa.
A consultora lembra que Argentina e México, os dois principais destinos internacionais dos carros brasileiros, responsáveis por quase 50% dos embarques, têm acordos de livre comércio com o Brasil. “O País precisa ampliar suas parcerias internacionais, se quiser ter uma indústria relevante”, diz ela. O problema é que precisa fazer isso logo. Em três anos, a produção asiática e do Leste Europeu poderá já ter ocupado os espaços potenciais da indústria brasileira.
Ray Young acredita que as dificuldades são conjunturais e podem ser superadas se governo e iniciativa privada trabalharem juntos por esse objetivo. E que muitas oportunidades se abririam ao País se os entraves fossem superados.

Vantagens. Young e Letícia Costa avaliam que a indústria automobilística brasileira pode ser líder em desenvolvimento de tecnologia para mercados emergentes. “Temos uma engenharia qualificada e de custo inferior ao dos países desenvolvidos”, diz o presidente da GM.
Um exemplo sempre lembrado da capacidade de inovação da indústria brasileira é o dos motores bi-combustíveis. Não é um caso isolado. Quatro montadoras (Fiat, Ford, GM e Volkswagen) possuem no País centros de desenvolvimento de padrão mundial. A engenharia de produção nacional também é reconhecida mundialmente. As fábricas da Ford na Bahia e da GM no Rio Grande do Sul são consideradas modelos.
A Volkswagen brasileira projetou o Space Fox montado na Argentina e o Fox Europa. A Fiat anunciou recentemente ter desenvolvido, em parceria com a Itaipu Binacional, um protótipo de carro elétrico. A Ford brasileira desenvolveu o EcoSport. A GM brasileira foi escolhida por sua matriz americana para desenvolver a próxima picape de médio porte da marca, que será o modelo global da montadora no segmento.
“O Brasil é um centro de desenvolvimento de tecnologia acessível a consumidores de renda média, típica de países emergentes. E os mercados emergentes são os que mais crescem”, define Flavio Padovan, diretor da divisão de caminhões da Ford. O problema é que o futuro da indústria automobilística brasileira não está apenas em sua capacidade tecnológica. “As condições conjunturais do País também têm de evoluir”, diz Ray Young.

Box 1
Volks: prejuízos e reestruturação

Entre 1994 e 2005, o setor automobilístico brasileiro, que inclui montadoras e fabricantes de autopeças, recebeu investimentos de US$ 32 bilhões. Chegaram ao País novos players, como Honda, Toyota, Hyundai, Peugeot e Renault. Alguns deles até já foram embora, como Audi e Land Rover. Montadoras tradicionais no País, como Volks, Ford e GM, investiram em novas unidades produtivas.
Diante de tal quadro, é natural que pólos antigos de produção, como o ABC paulista, percam espaço. Ford e GM reestruturam suas atividades na região, cortaram funcionários e constantemente adotam estratégias de redução de custos.
A GM, no momento, está empenhada em diminuir em US$ 400 o custo de produção de cada carro fabricado em sua unidade de São Caetano do Sul. A Ford recentemente conseguiu baixar seus custos em US$ 100 por unidade.
A decisão da Volkswagen em fechar 3,6 mil postos de trabalho em sua fábrica de São Bernardo do Campo não surpreendeu os analistas de mercado. Na verdade, esse desfecho já era esperado desde que, há cinco anos, a montadora fechou um acordo de estabilidade de emprego que termina agora, em novembro.
A Volkswagen não registra lucro há oito anos no Brasil, onde mantém cinco unidades produtivas – em São Bernardo do Campo (SP), de veículos e motores; em Taubaté (SP), de veículos; em Resende (RJ), de veículos; em São Carlos (SP), de motores; e em São José dos Pinhais (PR), de caminhões e ônibus.
A fábrica de São Bernardo é menos competitiva – ali, o custo do trabalhador é 128% superior à média do verificado nas demais. Enquanto a unidade do ABC paulista produziu 192,7 mil veículos no ano passado, a de Taubaté montou 205,1 mil.
Na unidade de São Bernardo trabalham 12,4 mil pessoas, mais de metade dos 24 mil funcionários da companhia no País. Inaugurada em 1959, a fábrica, que chegou a empregar 40 mil trabalhadores, abriga a forjaria, produz motores e câmbio e modelos considerados desatualizados ou de baixo desempenho, como Kombi, Polo, Gol e Saveiro.
Em 2004 a Volkswagen investiu R$ 100 milhões na produção, em São Bernardo, do Fox Europa, primeiro carro desenvolvido pela multinacional no Brasil, totalmente voltado para o mercado europeu. A expectativa era exportar 100 mil unidades por ano. Em 2005, a empresa chegou perto de atingir a meta, ao embarcar 82 mil unidades. Este ano deve exportar apenas cerca de 60 mil.
A matriz alemã concluiu que o Fox Europa não é competitivo e o substituirá, em 2009, pelo Polo produzido na Rússia. Hans-Christian Maergner, presidente da Volkswagen brasileira, culpa o real valorizado pela perda de competitividade do veículo no exterior.
Mesmo assim, a matriz anunciou que fará mais uma aposta na fábrica do ABC, investindo na modernização da linha de produção e em dois novos modelos que devem chegar ao mercado em 2008. A expectativa é que a operação brasileira volte a ser rentável.

Box 2
Invasão asiática

A presença da Chana Automobile, da China, neste Salão do Automóvel (que será realizado em outubro), e o anúncio de outra chinesa, a Chery, de que está concluindo parceria com uma empresa nacional para distribuir seus veículos no Brasil a partir de 2007 fizeram soar o sinal de alerta entre as montadoras instaladas no País. A concorrência com os asiáticos no mercado interno já começou.
A Chana vai expor no salão uma minivan com preço próximo de R$ 20 mil. Na mesma faixa deve chegar o compacto Chery QQ. Hoje, o modelo mais barato do Brasil é o automóvel Fiat Mille, comercializado por R$ 21,6 mil.
Marcos de Almeida, sócio-diretor da consultoria Price Waterhouse, não acredita, porém, que os carros chineses sejam uma ameaça iminente aos fabricantes locais. “As barreiras de entrada no mercado brasileiro são altas”, diz. Além da tarifa de importação, de 35%, lembra ele, há outra dificuldade: a de montar uma boa rede de distribuição por todo o território nacional.
Outro empecilho para os fabricantes da China no Brasil são as leis ambientais rígidas do País contra a emissão de gases poluentes – os veículos brasileiros devem sair das fábricas com determinados dispositivos, dos quais, em geral, os carros chineses ainda carecem. A produção do gigante asiático também pode não atender o consumidor brasileiro, que já se habituou a padrões de qualidade que os fabricantes chineses nem sempre conseguem atender. “Existem mercados mais fáceis de atacar no momento”, diz Almeida.
Mas Letícia Costa, presidente da Bozz Allen Hamilton no Brasil, acredita que a qualidade dos carros chineses evoluirá significativamente nos próximos três anos. As montadoras que atuam no País teriam, portanto, pouco tempo para se preparar para a concorrência.
Mas não são apenas os chineses que estudam o mercado brasileiro – os indianos também estão chegando. A montadora Tata fechou recentemente um acordo com o grupo Fiat. As duas empresas avaliam a possibilidade de produzir modelos indianos, para distribuição na América Latina, na fábrica de Fiat em Córdoba, Argentina.
A Tata, maior indústria automobilística da Índia, está desenvolvendo um carro popular com motor de 700 a 800 cilindradas e preço final de R$ 5 mil, o qual planeja lançar até 2008. Em entrevista recente ao jornal O Estado de S. Paulo, PM Telang, presidente da divisão de veículos comerciais, afirmou que um dos objetivos da empresa no Brasil é a comercialização desse modelo.

A indústria automobilística brasileira

Setor corresponde a 14,9% do PIB industrial

• Montadoras*.......................................................24
• Plantas industriais*.............................................45
• Empresas de autopeças.......................................500
• Capacidade instalada anual*...............................3,5 milhões
• Posição brasileira no ranking mundial...............9º
• Concessionárias..................................................3,6 mil
• Empregos diretos...............................................107 mil
• Empregos indiretos............................................1,2 milhão
• Faturamento em 2005**...................................US$ 42,3 bi
• Exportações 2005**.........................................US$ 18,1 bi
• Exportações de automóveis 2005.....................US$ 11,2 bi
• Impostos recolhidos em 2005**.......................R$ 21 bi
• Participação no PIB**........................................5,3%
• Participação no PIB Industrial**........................14,9%
• Investimentos entre 1994 e 2005.......................US$ 32 bi
• Veículos produzidos de 1957 a 2005.................46,4 milhões

* Automóveis, caminhões, ônibus e tratores
* * Incluí autopeças
Fonte: Anfavea


Mão-de-obra barata, mas nem tanto

O custo do trabalhador brasileiro supera o de vários mercados emergentes *

País

 Custo

Alemanha

  140

EUA

  100

Japão

    95

Inglaterra

    82

Espanha

    56

Coréia

    46

República Checa

    17

Brasil

    13

Polônia

    12

México

    11

Argentina

    11

Índia

      5

China

      4

* Base EUA = US$ 100
Fonte: Booz Allen Hamilton

Mercado relevante

Vendas no mercado brasileiro – projeções para 2006 em mil unidades

País/região

 Vendas projetadas

Crescimento em 2006

EUA

    17.370

        -0,4%

União Européia

    16.640

         1,4%

China

      6.270

         8,8%

Rússia

      1.940

         9,0%

Brasil

      1.840

         7,1%

Índia

      1.510

         4,9%

México

      1.240

          9,5%

Argentina

         450

         12,2%

Fonte: Booz Allen Hamilton

O crescimento dos emergentes

Projeções de evolução dos mercados internos até 2015

País

Crescimento

China

   72%

Índia

   11%

Brasil

   10%

Rússia

     8%

Fonte: Booz Allen Hamilton

 

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