Quais
benefícios o consumidor pode obter com a criação
de selos de qualidade para peças não-originais? O CESVI
realizou estudo comparativo entre peças, desenhando um modelo
de avaliação.
Quais
as diferenças significativas entre peças originais e
não-originais quanto à sua durabilidade, aplicabilidade
e situação na compra?
Esta é uma pergunta que há muito tempo passa pela cabeça
de quem, por motivo profissional ou pessoal, precisa adquirir uma
peça de reposição. Atualmente, há respostas
diferentes e muito desencontro de informação.
Quem compra uma peça não-original não está
muito certo sobre o que está adquirindo. Por falta de uma referência
segura quanto à qualidade das peças não-originais,
e há uma grande diversidade de marcas dessas peças no
mercado de reposição, oficinas e consumidores muitas
vezes se ressentem pela desinformação que pesa tanto
no bolso quanto na consciência, dependendo da opção
tomada na compra de uma peça.
No exterior, há exemplos positivos que proporcionaram referências
para o consumo de peças de reposição, tornando
a competição mais transparente e colocando uma importante
ferramenta de decisão nas mãos de quem precisa comprar.
É o caso de órgãos europeus que avaliam as diversas
marcas de peças não-originais existentes em seus mercados,
comparam-nas com suas semelhantes originais e dão certificados
de qualidade para aquelas que passam nos seus rigorosos testes. Segundo
os defensores da certificação na Europa, os benefícios
são vários, e os principais são o estímulo
à melhora dos sistemas de qualidade da indústria de
peças não-originais e a abertura de uma possibilidade
real para que haja uma competitividade saudável dentro do mercado,
ampliando o leque de boas escolhas para o consumidor.

Entidades
são a favor
E no Brasil? Nosso mercado seria igualmente beneficiado por um trabalho
de certificação das peças não-originais?
O que se ganharia com isto por aqui?
“A
única maneira da oficina saber se a peça é boa
ou ruim, além da palavra do consumidor, é contando com
a referência que vem de uma certificação”,
opina Antônio Fiola, presidente do Sindirepa, o Sindicato da
Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios
do Estado de S. Paulo. “Se vou comprar uma peça e ela
tem uma certificação, eu até pago mais caro por
ela, já que tenho uma segurança quanto ao material que
estou adquirindo. Sempre fui a favor de processos de certificação,
desde que sejam realizados de maneira ética, visando à
melhoria das empresas e da qualidade dos produtos”.
Fiola
se refere ao CESVI para exemplificar o tipo de benefício que
advém de uma certificação. “A partir do
momento em que o CESVI BRASIL iniciou seu trabalho de classificação
de oficinas, a qualidade do trabalho de reparação que
é feito no País melhorou muito”.
Outra
entidade que vê com bons olhos uma possível certificação
nesse setor é o Sincopeças, Sindicato do Comércio
Varejista de Peças e Acessórios para Veículos
no Estado de São Paulo. “Viria a dar uma maior credibilidade
a empresas que hoje são participantes sérios desse mercado.
E o consumidor tem muito a ganhar com isto”, afirma Francisco
de La Torre, vice-presidente da entidade.
“Uma
certificação sem dúvida iria contribuir para
uma compra mais segura”, analisa Marli Aparecida Sampaio, diretora
de programas especiais do Procon-SP. “O código do consumidor
aponta que os mercados não podem comercializar produtos que
ofereçam riscos às pessoas. No caso de peças
automotivas, uma peça que não esteja em conformidade
com as exigências de segurança pode, certamente, oferecer
esses riscos, e são riscos graves. Uma certificação
ou um controle de qualidade tem maiores condições de
minimizar esses riscos”.
“Precisamos
lembrar que a frota nacional é muito antiga. Como o preço
do reparo é influenciado pelo custo das peças, às
vezes se torna inviável, para o reparo de um carro mais antigo,
contar com uma peça original”, observa Ricardo Xavier,
diretor de assuntos institucionais da Fenaseg (Federação
Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização).
“Por isso, é fundamental que uma instituição
possa dizer ao consumidor quais as peças não-originais
que têm qualidade e quais não têm. Isso criaria
um mercado de livre concorrência muito interessante para o consumidor
e todos os envolvidos”.
“Um
selo de qualidade é a forma de ratificar a procedência
da peça. Uma certificação daria credibilidade
ao produto, orientando o consumidor”, esclarece Rafael de Mello
Jr., conselheiro para assuntos de reposição do Sindipeças.
“Ninguém tem a obrigação de conhecer todas
as marcas”.
Processo
de avaliação
Sempre no papel de centro dedicado à pesquisa, visando a jogar
luz sobre os mais diversos aspectos do mercado automotivo, o CESVI
BRASIL realizou um estudo comparativo entre peças originais
e não-originais. O intuito foi, acima de tudo, criar um processo
de avaliação do nível do que é executado
no exterior e, em um caso específico, que não pode ser
generalizado nunca, pois o mercado dispõe de muitos concorrentes,
avaliar as proximidades e diferenças (se existem) entre a peça
original e uma peça não-original.
Premissas
do estudo
Opções
Para a realização dos testes comparativos, a equipe
de Pesquisa & Desenvolvimento do CESVI BRASIL optou por trabalhar
com o modelo de carro mais vendido no Brasil, o Volkswagen Gol (um
Geração III), utilizando suas peças originais.
Para as não-originais, o CESVI utilizou peças de um
dos maiores fabricantes do mercado, a IGP.
Peças
escolhidas
Foram comparadas três peças geralmente envolvidas em
colisões dianteiras: o capô, o painel dianteiro e o pára-lama.
O centro realizou o estudo com este tipo de peça porque estão
incluídas no ramo de pesquisa a que o CESVI se dedica, que
é a funilaria e pintura. Na hipótese de uma certificação,
os órgãos do mercado poderiam avaliar diferentes tipos
de peças, dependendo de suas especialidades de estudo.
Para
garantir que as peças utilizadas seriam exatamente as mesmas
que um consumidor poderia ter em mãos, elas foram adquiridas
diretamente em seus pontos-de-venda (concessionária Volkswagen
e lojas de autopeças).
Comparativos
O estudo englobou os seguintes comparativos:
Do acondicionamento da peça no ato da compra / de sua identificação
/ de suas dimensões / da qualidade de seu acabamento / da espessura
de chapa / da espessura da camada de tinta de proteção
/ do comportamento no teste de “salt spray”, realizado
no laboratório credenciado pelo Inmetro / da análise
química de chapa / do comportamento diante de testes de impacto
e tempos de reparo / na montagem e ajuste das peças no veículo
/ de pintura das peças / de custo.
Primeira
etapa - análise
Como as peças foram adquiridas diretamente em seus locais de
comercialização, a equipe de Pesquisa aproveitou para
avaliar a forma como são acondicionadas e entregues ao consumidor.
Análises
laboratoriais
As análises laboratoriais foram realizadas no laboratório
Falcão Bauer, empresa homologada pelo Inmetro (órgão
de certificação e controle de qualidade). O laboratório
ficou responsável pelas seguintes análises:
• Determinação da espessura da camada de tinta.
• Exposição em câmara de névoa salina
(“salt spray”).
• Análise química para chapas finas de aço-carbono
para estampagem.
Espessura
de chapa
Como complemento, o próprio CESVI realizou teste de espessura
de chapa em sua oficina, acrescentando os resultados aos comparativos.
Neste teste do CESVI, foi utilizado um micrômetro, de modo a
estabelecer uma média entre medidas de pontos obtidos ao longo
da peça.
Espessura
da camada de cataforese
O laboratório Falcão Bauer determinou a camada de película
seca de tinta, seguindo a metodologia NBR 10443.
Análise química da chapa
As chapas de aço-carbono para estampagem atenderam os valores
especificados na norma NBR 5915.
“Salt spray”
Para análise da corrosão de material metálico,
as peças foram submetidas ao teste de névoa salina por
um período de 240 horas.
Segunda
etapa - Teste de impacto
O teste realizado teve como base as normas de impacto de baixa velocidade
estabelecidas pelo RCAR, um conselho internacional de centros de pesquisa
dedicados a estudar a reparação automotiva.
A norma diz que o veículo deve ser tracionado por um sistema
de cabos comandados por um motor elétrico de velocidade controlada,
e colide 40% de sua parte frontal esquerda contra uma barreira fixa
e rígida de 32 toneladas.
Após
os impactos, as peças foram comparadas.
Reparação
Para a reparação do veículo, foram utilizados
todos os procedimentos empregados no CESVI BRASIL, que preservam as
características do veículo, com o uso de bancada de
estiramento com sistema de medição, solda MIG/MAG, ferramentas
pneumáticas e cabine de pintura.
Processo de funilaria
Foram comparados tempos de reparação entre peças
originais e não-originais.
Processo de pintura
Avaliamos os tempos de aplicação e procedimentos para
ambos os tipos de peças.
Objetivo
do trabalho
Os resultados deste teste comparativo não serão divulgados
porque o objetivo da pesquisa é apontar um procedimento utilizado
em outras partes do mundo e que poderia ser positivo também
para o nosso mercado.
O que diz o CESVI
O estudo do CESVI BRASIL é um exemplo do que se pode realizar
a fim de comparar peças originais com não-originais,
visando a uma certificação de que as peças mantêm
as características necessárias para a devida segurança
e qualidade das diferentes partes do veículo. Outros processos
de avaliação podem ser realizados na parte mecânica
ou de acabamento.
O CESVI BRASIL entende, assim como as entidades que se pronunciaram
nesta matéria, que certificações realizadas por
órgãos competentes têm tudo para dar maior transparência
e credibilidade para o comércio de peças no Brasil,
onde os consumidores não têm as referências necessárias
para uma decisão de compra mais consciente e embasada.
A sugestão é de que as entidades envolvidas neste setor
participem de uma discussão maior sobre o tema, para que nosso
mercado dê mais um importante passo na direção
de consumidores mais esclarecidos e satisfeitos.
Nomenclatura
de peças
Já é oficial a norma brasileira ABNT NBR 15296, que
discorre sobre as definições relacionadas à nomenclatura
de peças automotivas. Confira o que diz a norma:
Peça de produção original
Peça que integra um produto original (veículo automotor)
em sua linha de montagem.
Peça de reposição original*
Também denominada peça genuína ou peça
legítima, destinada a substituir peça de produção
original para efeitos de manutenção ou reparação,
caracterizada por ter sido concebida pelo mesmo processo de fabricação
(tecnologia), apresentando as mesmas definições técnicas
da peça que substitui.
* Esta Norma não exclui a adoção pelo mercado
de termos específicos, a exemplo daqueles relativos a pneus
(recauchutados), não abrangidos e/ou contemplados por esta
Norma.
Peça de reposição
Também denominada peça de pós-venda, é
destinada a substituir peça de produção original
ou peça de reposição original, caracterizada
pela sua adequação e intercambialidade, podendo ou não
apresentar as mesmas especificações técnicas,
características de qualidade (por exemplo, material, resistência,
tratamento de beneficiamento, desempenho e durabilidade) da peça
de produção original.
Fonte:
Revista Cesvi Brasil
