Certificação para a TÜV é um negócio
sério. A empresa começou nesse ramo no século
retrasado, e hoje é referência mundial em certificados
de qualidade dos mais diversos tipos de produtos. Está presente
em 70 países, incluindo o Brasil, tem mais de 9 mil empregados
e apresenta um faturamento global de 1 bilhão de dólares
por ano.
Nesta entrevista exclusiva para a Revista Cesvi, o diretor da unidade
de São Paulo, Delzuite Martins Ferreira Júnior, conta
um pouco da trajetória da empresa e explica por que os produtos
precisam de uma certificação na área automotiva.
“Com uma certificação, você desenvolve
critérios, e o produto sai de fábrica com a qualidade
de que o consumidor precisa para realizar a compra com segurança”.
Como foi o início das atividades da TÜV?
Em 1997, começamos com um trabalho no Brasil de ISO 9000,
ISO 14000 e TS 16469 na área automotiva. Na época,
o foco estava apenas em sistemas de gestão, nada ainda de
produtos. Mas a TÜV nasceu em 1872, na Alemanha. A Europa vivia
a Revolução Industrial, havia máquinas a vapor
em todas as cidades, e esse equipamento provocava muitos acidentes
relacionados a caldeiras e pressão alta. Então, o
governo alemão determinou que as máquinas deveriam
ser verificadas uma vez por ano. Com isso, ficou estabelecido que
cada cidade deveria ter uma associação técnica
para verificar essas máquinas e assegurar a segurança
desses produtos. Como a máquina a vapor era o que dava propulsão
ao automóvel, a TÜV se envolveu na área automotiva
desde os seus primórdios. Um detalhe: a sigla TÜV significa
exatamente “associação técnica de inspeção”.
Mais recentemente, a empresa passou a ser internacional...
Exatamente, hoje estamos em mais de 70 países. Onde há
exigências de certificação, a TÜV está
presente. Só não marcamos presença em lugares
nos quais a produção e a comercialização
de produtos não envolve esta exigência.
Fale um pouco sobre a atuação da empresa no Brasil.
Aqui, começamos a certificação de produtos
em 2003, em parceria com o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)
e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Passamos os
laboratórios desses parceiros para testar produtos de acordo
com as normas internacionais. O principal foco é o apoio
às exportações de produtos brasileiros. Antes,
o empresário, para conseguir que seu produto chegasse aos
mercados do exterior, tinha que receber a certificação
do produto no país de destino. Hoje, como a certificação
da TÜV já contempla as normas de cada país, o
produto brasileiro já sai daqui certificado. Por exemplo,
estamos participando da homologação de projetos nacionais
de veículos que envolverão uma certificação
européia.
Qual a importância da área automotiva nos negócios
da TÜV?
Total. A TÜV possui seis áreas de atuação,
e há uma inteira dedicada ao setor automotivo. Esta área
cresceu muito porque em nosso país de origem, na Alemanha,
o proprietário de veículo precisa passar a cada dois
anos em uma oficina da TÜV, para uma inspeção.
É comum, lá, você ouvir a pessoa dizer, “vou
pegar o meu TÜV”. Há até um fator de mercado
interessante relacionado a essa inspeção na Alemanha.
Como ela acontece a cada dois anos, o preço de revenda do
seu carro sobe quando você acaba de fazer, porque ele ganha
uma garantia de que é seguro e está em perfeitas condições;
já quando falta pouco tempo para uma nova certificação,
o preço do carro fica lá embaixo.
“Por um lado, a globalização impulsiona o fabricante
de peças a levar a qualidade dele para cima, enquanto, por
outro, há estrangeiros querendo entrar no Brasil com produtos
de menor preço e qualidade”.
Como é a experiência de inspeção veicular
no exterior, sob a ótica da certificadora?
Esse trabalho exige que você conheça as necessidades
e exigências de cada país. Há lugares que só
exigem um controle do nível de emissão de poluentes.
Mas a inspeção veicular pode ir muito além
disso: pode verificar se o seu carro tem ferrugem, se tem problemas
de suspensão, de freio...
Há outras formas de certificação desenvolvidas
pela TÜV nessa área?
Em função de uma relação que a TÜV
tem com seguradoras européias, realizamos um trabalho de
certificação de peças. Antes, na Europa, só
as montadoras podiam vender peças. O conceito era que, se
o carro em seu conjunto é homologado com aquela determinada
peça, só a montadora poderia garantir sua qualidade
e segurança. Ou seja, a peça tinha que ser original.
De dois anos para cá, uma nova legislação permitiu
o fornecimento de peças por parte de outras empresas. Então,
fabricantes chineses invadiram o mercado, com produtos de todo tipo
de qualidade. Com o preço menor de muitos desses produtos,
teve início uma concorrência desleal, e as seguradoras,
embora interessadas em obter um melhor preço nas peças,
estavam preocupadas com a qualidade do que vinha sendo oferecido.
Com isso, a TÜV foi procurada para realizar a certificação
das peças, comparando as não-originais às originais.
Se as não-originais se comportam da mesma forma que a original,
emite-se um certificado relacionado a este comportamento.
Como você vê o mercado de peças no Brasil?
Entendo que há uma disparidade muito grande quanto à
qualidade. Por um lado, a globalização impulsiona
o fabricante de peças a levar a qualidade dele para cima,
enquanto, por outro, há estrangeiros querendo entrar no Brasil
com produtos de menor preço e qualidade. Hoje, não
existe no País um organismo responsável pela qualidade
desse tipo de produto. Enquanto na área médica, por
exemplo, a Anvisa realiza este controle com o auxílio do
Inmetro, na área automotiva só há um controle
específico relacionado aos pneus. É preciso que haja
uma certificação, e a TÜV, assim como conta com
o INPE e outros laboratórios em outros setores, poderia utilizar
o CESVI BRASIL para a parte da certificação que dirá
respeito ao comportamento de peças não-originais em
testes de impacto.
Na sua opinião, por que é tão importante que
os produtos, de modo geral, contem com certificados de qualidade?
O mercado coloca o consumidor diante de inúmeras opções
de produtos, e a decisão de compra precisa surgir de uma
maneira segura, embasada, o que vale tanto para a dona de casa quanto
para quem vai comprar um navio. Com uma certificação,
você desenvolve critérios, e o produto sai de fábrica
com a qualidade de que o consumidor precisa para realizar a compra
com segurança. E o certificado não pode se restringir
ao produto específico que foi analisado. A TÜV faz auditoria
semestral da empresa fabricante, para certificar que a empresa está
mantendo o processo produtivo que foi utilizado na peça aprovada.
Por isso, uma empresa sem ISO 9000, por exemplo, dificilmente passaria
numa avaliação da TÜV.
Você acha que é necessário uma legislação
exigir que haja uma certificação de determinado produto,
ou o próprio mercado pode fazer com que esta certificação
se imponha, dando preferência aos produtos certificados?
Trabalho com qualidade desde 78, e tenho grande admiração
pelo trabalho do Inmetro. A filosofia dessa instituição
é a seguinte: se a sociedade adota um processo que garante
qualidade, é exatamente esse processo que será adotado
pelo Inmetro. Se for criado um processo bem estabelecido, documentado,
feito por pessoas treinadas, isso fará com que a certificação
seja aceita pela sociedade. Todos queremos boas peças a preços
justos.