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O INÍCIO DE UMA CADEIA
Após quatro meses de entrevistas com reparadores, varejistas e distribuidores, e publicações que revelam, pelo menos em parte, a realidade enfrentada por empresários que atuam no mercado de reposição de autopeças e reparação automotiva no Brasil, divulgamos, na quarta e última matéria da série Diálogos do Aftermarket, a opinião de fabricantes de peças e componentes para esse setor.


Só sobrevive no aftermarket automotivo o fabricante de autopeças que está focado nas necessidades do seu cliente e, sobretudo, nas muitas exigências desse mercado, no qual a parceria é a chave para os bons negócios.
Não é exagero ou apenas analogia dizer que o aftermarket automotivo é uma cadeia que precisa estar unida se quiser permanecer forte. Essa é a primeira certeza que se tem quando esse mercado é analisado. Em geral, os empresários que atuam neste setor sabem disso e com os fabricantes de autopeças não é diferente. Até porque, em muitos casos, a reposição equivale a um montante considerável do rendimento total dessas empresas. “A reposição respondeu por 13% de um faturamento de US$ 24,2 bilhões em 2005. É sem dúvida um importantíssimo segmento de mercado para os fabricantes de autopeças”, disse Paulo Butori, presidente do Sindipeças – Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores.

É claro que, dependendo da atuação do fabricante, a representatividade da reposição em seus negócios pode aumentar ou diminuir. “Esse segmento sempre foi foco da Sabó. 35% do nosso faturamento provêm dele. Outros 35% vêm das montadoras e 30% das exportações”, revela Luiz Freitas, gerente de marketing da empresa.

“Para nós, a reposição representa aproximadamente 45% no faturamento total da operação no País. No mundo, ela passa para 12%. Temos que manter o equilíbrio nos negócios para preservar a competitividade nos dois mercados”, explica Edvaldo Ricardo Selidonio de Souza, gerente nacional de vendas e aftermarket da Mahle Metal Leve do Brasil.

Em alguns casos, como o da Affinia, por exemplo, o ganho do fabricante está 100% voltado ao aftermarket. “O maior benefício é o foco e o comprometimento. Além disso, nossos clientes não disputam mais disponibilidade de produtos com o mercado original. Toda nossa estrutura, recursos e materiais, inclusive humanos, são pensados e desenvolvidos com um único objetivo: a reposição”, afirma Jorge Schertel, presidente da empresa para América Latina.
O mercado

Quem atua no aftermarket automotivo sabe que ele é extremamente complexo e competitivo. “Esse segmento já não aceita mais ser o outro, ou seja, ser lembrado somente na hora do resultado. Não existe mais espaço para que alguns fabricantes venham tirar a diferença do faturamento na reposição. A competitividade hoje obriga os fabricantes a colocarem esse segmento no mesmo nível de relacionamento que o das montadoras”, diz Schertel.

E, apesar de ser um pouco mais flexível e até rentável do que o das montadoras, esse setor também exige muito investimento e dedicação. “É preciso que você seja forte para marcar presença no mercado. Contamos com uma área de engenharia e com plantas dedicadas exclusivamente para ele. Além disso, temos a sorte de dispor de distribuidores fiéis, o que é fundamental para garantir que os produtos Sabó vão estar em todo o País”, afirma Freitas.

Complicado? Bastante. Ainda mais que sempre se deve acrescentar a essa equação trabalhos de marketing, de relacionamento, de garantia, de atendimento técnico, de pós-vendas, entre outros. “A reposição não pode ser uma conseqüência, mas um compromisso dos fabricantes. Na Sabó, por exemplo, pensamos em trabalhos para a evolução do segmento como um todo. Estamos desenvolvendo projetos que possam gerar negócios para a cadeia”, diz o gerente de marketing da empresa.

Aliás, hoje, a idéia de que o sucesso do cliente está atrelado diretamente ao crescimento de todo o mercado de reposição é cada vez mais comum entre os fabricantes de autopeças. Eles sabem que já não adianta mais apenas produzir e comercializar peças de qualidade, mas que é preciso ajudar o distribuidor, o varejista e até o aplicador a vender esse componente ao dono do carro que, por sua vez, precisa ser convencido de que a manutenção do veículo é inadiável.

Desafios

Como nos outros elos do setor, os problemas fiscais e tributários também são grandes empecilhos para os fabricantes de autopeças. “Infelizmente, as soluções para esses problemas estão fora de nosso controle. É imperativo que nossos parlamentares desçam do palanque e comecem a trabalhar em prol do setor e do País. O cumprimento das leis existentes e a reforma tributária são essenciais, e não só para o nosso segmento”, comenta o presidente da Affinia. Além disso, os empresários entrevistados afirmam que é preciso que o governo crie ações capazes de equacionar os juros e o câmbio vigentes. “Com a depreciação do dólar frente ao real, a lucratividade das empresas nacionais com as exportações é cada vez menor, o que impede que nos mantenhamos competitivos no mercado internacional ou aloquemos investimentos externos para o Brasil”, explica Soares.

E não é só o mercado externo que preocupa o empresariado. A falta de incentivos governamentais para que se aumente o consumo dentro do País também é preocupante. Para Paulo Butori, é preciso estimular a demanda interna: “O mercado é um só. Se não há aumento nas vendas de carros novos, por falta de renda, insegurança do consumidor ou dificuldade de crédito, também o mercado de reposição fica parado ou cresce em percentual insignificante”.

Ainda segundo o presidente do Sindipeças, se nada for feito para solucionar esse problema, os bons números apresentados em 2005, resultados de exportações, não se repetirão, visto que as vendas externas também estão caindo com a valorização da moeda brasileira: “Temos conversado com vários representantes do governo, apresentado diagnósticos e algumas propostas para que o mercado interno reaja. Esperamos que algo seja feito rapidamente”, afirma.

Problemas mais específicos, mas não menos importantes, como o de montar uma rede de distribuição e logística bem estruturada, o de oferecer pacotes de serviços capazes de satisfazer os diversos clientes deste segmento e o de se manter competitivo também tiram o sono de muitos empresários. “Ainda há nesse mercado um alto grau de informalidade. Além dos muitos concorrentes, ainda temos que enfrentar aqueles que não são nada éticos, que atuam na clandestinidade, não pagam imposto e também não têm nenhuma preocupação com qualidade ou com desenvolvimento de novas tecnologias”, lamenta Luiz Freitas.

Geração de crédito

A falta de um órgão financiador específico para a cadeia de reposição de autopeças e reparação de veículos é uma das queixas de muitos empresários do setor, que disputam parte do salário do dono do veículo com outros setores da economia, e precisam arcar com os custos de oferecer prazos cada vez mais longos de pagamentos.

Dentro da cadeia, o que se vê é reparador recebendo a prazo, pagando a perder de vista ao varejista que, por sua vez, também pré-data o cheque no distribuidor, que pede mais tempo ao fabricante, e assim por diante. “Fazemos parte de um seleto grupo dos cinco países nos quais há a maior taxa de juros do mundo. Esse é um problema do País e, infelizmente, o fabricante não pode resolver isso sozinho, pois também precisa de crédito para financiar o seu capital de giro. Por isso é fundamental que cada empresário saiba administrar o seu capital de giro como se fosse o bem mais importante da sua vida”, aconselha Schertel.

“Nós também temos dificuldade de obter crédito para os investimentos necessários. Se falarmos das empresas do segundo e terceiro níveis de produção, que são as de capital nacional, o problema se agrava. Mas, sem dúvida, cada empresa deve ter sua própria política, até mesmo a de financiamento das vendas”, completa o presidente do Sindipeças.

Para os empresários entrevistados, é preciso que os representantes de toda a cadeia discutam e cheguem a um acordo quanto à criação de um sistema eficaz de financiamento para gerar mais recursos para o setor. “Estamos estudando com algumas instituições financeiras a possibilidade de criar um financiamento que ajude ao reparador a oferecer ao dono do carro novas opções de pagamento, o que poderia aumentar os serviços realizados nas oficinas e, conseqüentemente, a venda de autopeças, sem onerar nenhum dos elos que dela participa”, afirma Luiz Freitas, da Sabó.

Peças importadas, um problema à parte

Como se não bastasse todos os problemas já citados, a entrada de autopeças importadas, principalmente da China, no Brasil tem incomodado muitos fabricantes. Só no ano passado, o crescimento das importações vindas daquele país foi de 55,38%, enquanto o aumento das exportações não chegou aos 3%. “O problema maior é que, na maioria das vezes, as importações se concentram em alguns setores, que são muito prejudicados, causando até o fechamento de fábricas”, afirma Butori.

Com os preços muito baixos, os produtos chineses beneficiados por uma política do governo chinês de incentivo a inserção das suas marcas no mercado mundial e dos baixos custos de mão-de-obra, entre outros benefícios, fazem com que o referencial de preço das autopeças no País não seja compatível com os gastos daqui.

Embora muitos empresários acreditem que os preços das peças chinesas não se mantenham tão baixos por tanto tempo ainda, é preciso que atitudes protecionistas sejam adotadas não apenas pelo governo, mas também pelas empresas que atuam neste segmento para evitar uma perda maior de mercado. “Só na última edição da Automec havia mais de 200 empresas asiáticas, muitas delas com certificações como ISO 9000. O que não dá para ficar acreditando é que venceremos essa briga apenas difamando os produtos dos concorrentes. Ao invés disso, precisamos mostrar aos nossos clientes de forma coerente o que toda a cadeia perde quando um deles opta pela compra de peças importadas”, acredita o gerente de marketing da Sabó.

Mesmo assim, para Schertel, é inevitável que a oferta de produtos chineses ainda aumente. Porém, vale lembrar que a frota brasileira é muito específica e nenhum importador tem todos os produtos necessários: “Isso, de certa forma, protege o nosso parque industrial. É importante que os empresários do setor percebam que não se pode pensar só no custo das peças, tem que pensar no negócio. Precisa considerar a parceria forjada ao longo de várias décadas entre a indústria e o comércio locais”.
Desempenho

Com tantos desafios, os números apresentados pela indústria de autopeças no último ano inspiram cautela. “Diferentemente da performance em 2004, na qual a indústria fechou o ano com o seu melhor desempenho desde 1986, apresentando crescimento da produção na ordem de 8,3%, 2005 foi mais difícil para os fabricantes, sobretudo pela alta taxa de juros, quebra na safra agrícola e a instabilidade gerada pelo cenário político. Além disso, o setor também foi fortemente influenciado pelos aumentos nos custos dos insumos e pelo câmbio desfavorável, o que afetou a competitividade nas exportações e favoreceu os importadores”, explica Edvaldo Ricardo Selidonio de Souza.

“A previsão do Sindipeças para 2006 é de uma produção de veículos entre 2,5 milhões e 2,6 milhões de unidades, ou seja, se houver crescimento, será pequeno. Mas 2007 ainda é uma incógnita. Poderemos ter muitos problemas se o mercado interno não crescer e as exportações, por conta da valorização do real, continuarem a cair”, diz o presidente do Sindipeças.

Inspeção veicular

Com tantos percalços, a implantação da lei que obriga as Inspeções Veiculares de Segurança em todo o País seria como a chuva no deserto para muitas empresas que atuam no setor. Como não existe uma previsão específica para o mercado brasileiro do montante que as manutenções preventivas poderiam gerar nesse mercado, o presidente da Affinia arriscou-se a fazer alguns cálculos. “Um estudo existente nos EUA para o programa de manutenção 'Be Car Care Aware' – em português, Cuide do seu Carro –, aponta que naquele país existem cerca de U$ 60 bilhões de serviços não-feitos. Considerando que a frota brasileira é 10% da norte-americana, teríamos um montante de U$ 6 bilhões. Para sermos bem mais conservadores, poderíamos ainda considerar apenas 10% desse último valor que ainda teríamos U$ 600 milhões ou cerca de R$ 1,3 bilhão, o que é surpreendente”, calcula Jorge Schertel.

“É absolutamente frustrante saber que um projeto como o da inspeção veicular está parado. Ele poderia não apenas movimentar todo um setor de negócios como também melhorar as condições de rodagem e conscientizar o motorista brasileiro”, conclui Luiz Freitas.

Fonte: Revista Mercado Automotivo.

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