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Viagem ao olho do dragão
Diretoria do Sindirepa de São Paulo vai à China conhecer de perto o potencial do país que está tirando o sono de grandes corporações em todo o mundo

Silvio Rocha
silvio@novomeio.com.br


A China, na época das fronteiras fechadas, sempre foi considerada um gigante adormecido. Após a abertura do mercado local, o país virou uma espécie de estranho no ninho da economia mundial. O desapego às regras do comércio internacional fez com que muitos narizes importantes fossem torcidos para o grande dragão asiático. O que, no entanto, não impediu que o presidente Lula reconhecesse a China como uma economia de mercado.
Não é de hoje que a China vem se tornando um competidor forte em inúmeros segmentos. Mão-de-obra baratíssima e produtos de qualidade muitas vezes questionável são fatores que fazem com que os itens “made in China” sejam oferecidos por preços quase imbatíveis na maioria dos setores em que são ofertados, qualquer que seja o país. No Brasil, em especial, o estrago tem sido considerável, com conseqüências graves para indústrias como a de vestuário e a de brinquedos, entre tantas outras.
Em função dessa nova concorrência, muitos brasileiros têm escolhido a China como parada obrigatória em suas viagens de negócios. Afinal, é preciso conhecer melhor esse novo competidor do mercado internacional para avaliar como ele deve ser considerado na estratégias de evolução das empresas nacionais.

Referência

Este exercício de benchmarking é importante não apenas para empresários, mas também para as pessoas que dirigem as entidades de representação de seus setores. Assim como fizera seu antecessor, Geraldo Santo Mauro, o presidente do Sindirepa-SP, Antonio Fiola, saiu em viagem no final do ano passado para visitar a Automechanika da China, e aproveitou para conhecer de perto as muitas nuances do mercado local.
Antes de abrir seu diário de bordo, Fiola faz questão de enfatizar que sua viagem – em companhia de Sérgio Alvarenga, diretor institucional do sindicato – foi realizada com recursos do GPE, que é o Grupo de Planejamento Estratégico do Aftermarket brasileiro, formado por representantes dos quatro elos da cadeia de reposição independente, ou seja, indústria, distribuição, varejo e reparação.
Foi, portanto, uma missão importante para todo o mercado. Nesta reportagem, Antonio Fiola e Sérgio Alvarenga relatam um pouco de sua experiência por uma nação gigantesca e mais acordada do que nunca.


Viagem

Conhecer o país mais populoso do mundo e também um dos que mais exportam autopeças para o Brasil. Como empresário da reparação automotiva e presidente do Sindirepa-SP, Antonio Fiola há muito tempo aguardava por essa oportunidade.
“Além da vontade, tínhamos também a necessidade de conhecer o mercado chinês. Porque assistimos nos últimos meses a uma verdadeira invasão de produtos vindos da China para as oficinas mecânicas. A nossa preocupação maior é que no Brasil o mecânico é responsável pela peça que aplica no veículo do cliente”, explica.
Por isso, a ida dos diretores do Sindirepa-SP à China era uma questão fundamental para proporcionar segurança às oficinas de reparação automotiva brasileiras que utilizam esses produtos. Conhecer um pouco da qualidade dessas empresas chinesas para depois transmitir as informações ao mercado brasileiro foi um dos objetivos da viagem de Fiola ao país.
“Precisávamos conhecer muito bem esses fornecedores para passar os detalhes a todos, uma vez que hoje não se pode escolher um produto meramente por causa de preço. Isso pode comprometer a segurança do cliente e, principalmente, todo o trabalho”, diz Fiola.


Reparação

O panorama da reparação automotiva na China mostra que há por lá grandes e também pequenas oficinas mecânicas em atividade. “Existem na China grandes e boas oficinas, como também pequenas e ruins. Percebemos que as grandes talvez não cheguem ao nível das nossas aqui no Brasil. Quanto às pequenas, elas são muito limitadas tecnologicamente”, diz Fiola.
Assim como ocorre com os brasileiros, o presidente identificou que os chineses também não fazem a chamada manutenção preventiva: eles só procuram a oficina mecânica quando realmente o veículo precisa. “Eles são bem parecidos com os brasileiros no que diz respeito aos cuidados com o veículo”, argumenta.
Se há uma lacuna entre os níveis de oficinas mecânicas na China, esse espaço é ainda maior quando o assunto é formação de mão-de-obra. “Ficou claro que não existe muito preparo. Quando falamos que no Brasil tínhamos escolas específicas para formação de profissionais da reparação automotiva, para eles era uma informação nova, fascinante. Se não se capacitarem adequadamente, eles certamente serão surpreendidos pela eletrônica. No quesito mão-de-obra, a nossa ainda é muito superior à deles”, afirma Fiola.


Mercado

Outra peculiaridade da China é que o país não tem, pelo menos por enquanto, uma cadeia de autopeças estruturada como é a brasileira. Segundo o presidente do Sindirepa-SP, não existe ainda uma definição interna com relação à configuração de uma cadeia, talvez porque no momento a exportação seja o que mais interessa para eles.
“A cadeia deles ainda está muito desordenada. A frota de 24 milhões de veículos mostra que o país está em franco crescimento e que o mercado precisa se estruturar rapidamente. Não existe na China uma cadeia como a nossa, bem definida, com indústrias, distribuidores, varejos e oficinas”, conta.
Antonio Fiola diz que por lá não existem grandes varejos, mas sim grandes atacadistas. “Os fabricantes de autopeças chineses estão mais preocupados em exportar do que estruturar essa cadeia. Certamente isso tem feito com que o mercado interno esteja tão desordenado”.
O presidente da entidade prevê que, em pouco tempo, a China deva se desenvolver bastante na área automotiva. Para tanto, Fiola conta que o país realiza grandes investimentos, principalmente na sua malha viária. “Eles querem até 2010 dobrar a frota de veículos. Em quatro anos, eu acho difícil, mas em se tratando de China não é impossível. Eles são extremamente aplicados, sem dúvida nenhuma uma máquina de trabalhar”.
Com relação às autopeças que a todo o momento desembarcam no Brasil a preços que prejudicam a competitividade dos produtos nacionais, Fiola entende que é preciso ter cautela. “Os chineses estão investindo em certificações de qualidade para seus produtos e certamente também não deixarão a qualificação de seus profissionais para segundo plano. A grande notícia, no entanto, para nós, é que a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) já está normatizando a nomenclatura dessas autopeças no Brasil, o que não deixa de ser uma forma de prevenção em todos os sentidos, para todos os elos da nossa cadeia”, argumenta o presidente.
Por fim, Fiola relata que uma discussão que está merecendo a atenção de todos na China é uma lei que obriga as montadoras que produzem veículos por lá a colocarem ideogramas em todas as peças dos veículos. “Sem dúvida, isso deve atrasar um pouco a produção de veículos por lá, principalmente porque as montadoras precisarão se adaptar a essa nova regulamentação”, conclui o presidente do Sindirepa de São Paulo.


Fonte: Revista Mais Automotive

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